A cura criativa de Camila do Rosário

A arte cura.

E a artista catarinense Camila do Rosário sabe bem disso. A ilustração e o mergulho em seu próprio universo propiciaram, além da lapidação do seu talento, um processo orgânico e profundo: o encontro com todas as mulheres do mundo em seu próprio traço.

Além de falar sobre o feminino, o regionalismo marca bastante seu trabalho. É história e força na veia. O tema aguça a sensibilidade da criadora e fascina todas as criaturas que se deixam impactar pela sua arte.

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Vencedora de prêmios importantes, Camila tem o desafio como uma constante em seu trabalho. A caneta esferográfica é seu instrumento artístico preferido.

Transformando erros em maravilhosos desvios de caminho, Camila compõe mulheres incríveis e lança um olhar novo sobre a ilustração e a moda, área em que começou a trilhar sua carreira.

A arte está na sua vida desde sempre?

Tenho a lembrança de desenhar desde criança. Lembro dos quadros de paisagem pintados a óleo pelo meu avô e pequenos tecidos com temas florais pintados pela minha avó, que teve como um dos poucos trabalhos fora de casa, pintar louças a mão.

Quando pequena, eu desenhava pessoas com membros e não o homem palito como meus coleguinhas faziam, e por conta disso até me passaram de ano. Ter entrado na faculdade de moda também tem a ver com essa trajetória do desenho. Apesar de não ter terminado o curso, até hoje meu trabalho tem influência desse universo. Foi a partir daí que comecei a desenhar todos os dias e começaram a rolar os primeiros trabalhos profissionais na área de ilustração.

Que técnica você mais gosta de usar?

A esferográfica é meu ponto de partida. Gosto muito de trabalhar com personagens e com ela consigo representar a figura humana de um jeito que me agrada, evidenciando a luz e a sombra, meio tom. Gosto de usar a técnica da esferográfica para o realístico- pois com ela é possível obter a luz que define os corpos e expressões humanas- e depois misturar com a tinta para incrementar de uma forma mais livre o trabalho minucioso da caneta.

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Como você desperta sua criatividade?

Acho que o processo criativo está muito ligado à ralação, ao trabalho mesmo. Quanto mais desenho, mais fácil é criar. Quando passo muito tempo sem produzir, na hora de voltar sinto que fico bem mais travada.

Para produzir uma obra artística não tem mágica. Trata-se mesmo de trabalho contínuo e dedicação.

Seu trabalho fala muito do feminino. Como foi essa construção e o caminho para ilustração de moda?

Falar do feminino acho que foi uma das consequências da minha aproximação com a moda. Aos poucos fui tomando gosto pelo tema e tentando ampliar essa mulher pra fora da figura de moda. Foi um processo orgânico, não muito pensado. Houve uma época em que eu estava deprimida e desenhar o meu universo foi curativo. A arte tem esse poder.

Ser artista é comunicar algo que está além de mim.

Desde então, o meu tema é esse universo que se expande para outras mulheres também. Não saberia dizer quem são minhas mulheres porque elas são todas as mulheres do mundo.

E o regionalismo que marca seu trabalho, de onde vem?

Sempre gostei desse tema. Além de esteticamente ser muito rico, sempre fui fascinada por como o homem materializa sua cultura. Tem espontaneidade, força, história, e pureza nesse assunto e isso sempre desperta minha sensibilidade.

O que é moda pra você?

Uma representação simbólica, coletiva e individual ao mesmo tempo. Uma linguagem de comunicação e identificação entre as pessoas e, da mesma forma, uma pulsão de singularidade diante do mundo. Pra mim, a moda não se restringe a uma roupa. Ela é todo um universo simbólico construído para representar o espírito do tempo.

Como foi participar do reposicionamento da Skol e dar voz a um novo olhar sobre o feminino?

Eu gostei bastante de participar desse projeto, principalmente porque eu vi durante a produção que as mulheres eram maioria na equipe. Isso me sinalizou que poderia ser para além de uma jogada de marketing e a popularização do feminismo por si só já tornaria o projeto importante. Muita gente ainda não sabe o que é feminismo e quanto mais esse tema for abordado de forma inteligente e bem informada, melhor.

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Algum trabalho mais desafiador ou especial?

Tenho afeto por todos eles. Escolher um seria escolher o filho favorito, o que não é muito justo. Eu passo bastante tempo em cima de um desenho, então é mais que natural que eu me apegue a eles. Às vezes é até dolorido ver um original indo embora, mas saber que uma das minhas mulheres foi escolhida para morar com alguém é bem legal.

Todo trabalho é desafiador. Por usar a esferográfica, material que não dá pra apagar como o grafite, tive que aprender a lidar com os erros, tornando-os novos caminhos, rumos diferentes propiciados pelo processo.

Como foi ganhar os prêmios do concurso Marie Claire/ IED?

Foi um sonho porque tive a oportunidade de fazer um curso de verão durante um mês em Barcelona. Além da viagem, o curso foi incrível, os professores eram ótimos e conheci pessoas maravilhosas no percurso. Valeu muito a pena a experiência. O prêmio também deu uma visibilidade enorme pro meu trabalho, recebi várias propostas a partir dele.

Pra você ser artista é...

Ser curiosa e inquieta. Refletir e representar o que me emociona, maravilha e o que incomoda também.

Duas dicas para quem quer começar

Praticar todos os dias
Ter um sketchbook

Duas cores para combinar

Azul e laranja pra mim é a combinação entre calma e energia. Gosto muito.

Mosaicos
Maria Fulô

Duas músicas para inspirar

Dois lugares para viajar

Floripa e Rio

Dois sites para passear

Tina Berning
Museu Bispo do Rosário

Duas coisas para não passar sem

O mar e um sketchbook

Dois livros para devorar

Cem Anos de Solidão, Gabriel Garcia Marquez
O Livro dos Abraços, Eduardo Galeano

Dois filmes para emocionar

Qualquer um do Wes Anderson
A Ostra e o Vento do Walter Lima Jr

Dois Studios da Colab55 para elogiar

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@camixvx

Duas artes da Colab55 para admirar

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