As ilustras encantadas e maduras de Giovana Medeiros

Ilustração infantil é coisa de gente grande.

A artista Giovana Medeiros está aí, pelos livros e em vários cantos do mundo, para provar isso.

A ilustradora, que atualmente vive em Dublin (Irlanda), é referência quando se fala em histórias infantis e desenhos que são muito mais do que fofos: revelam um traço marcante, fruto de talento e muito estudo.

Impossível não se deixar seduzir por seus personagens. Velhos conhecidos como Mary Poppins, Alice e Edward mãos de tesoura ganham um charme a mais e todas as suas outras criações contam uma história, o que confere ao trabalho de Giovana uma graça especial.

Arte - Giovana Medeiros

A relação com seu traço mais infantil nem sempre foi amigável, conta Giovana. Mas foi exatamente a recusa de alguns trabalhos por conta dessa característica que acabou fazendo a ilustradora transformar um aparente problema em sua maior força. Crianças pequenas e grandes agradecem!

Como a arte entrou em sua vida?

Minha mãe estudou e é professora de artes então a gente sempre teve papéis, tintas e canetas pela casa. Eu e minhas irmãs passávamos muito tempo assistindo desenho animado e copiando os personagens, o que nem é tão diferente do que faço hoje.

Eu sabia que iria estudar algo que envolvesse desenho, e sempre fiquei entre Artes Visuais, Design Gráfico ou Moda. Acabei entrando em moda por uma série de fatores - ganhei uma bolsa de estudos e sabia que teria mais oportunidades de trabalho porque a minha cidade, Criciúma, tem muitas empresas de vestuário.

Como foi a transição de criação de estampas para ilustração?

Mesmo trabalhando com moda, eu sempre tentei desenhar por diversão nas minhas horas livres. Mantive uma “presença virtual” e fui migrando de uma rede social para outra, fotolog, flickr, tumblr twitter etc. Foi assim que fui conhecendo pessoas que trabalhavam com ilustração e entendendo melhor como funcionava.

Um problema que eu tinha quando trabalhava com moda era sempre ouvir que meu traço era muito infantil e eu ficava louca porque estava tentando atender ao briefing. Com o tempo, conhecendo mais ilustradores na internet com gostos em comum, eu parei de encarar isso como algo ruim, mas sim como um sinal que talvez estivesse seguindo caminho errado. No meu último ano da faculdade, decidi que iria começar a me dedicar a ilustração, e também foi o ano em que resolvi mudar para Dublin e estudar inglês. Foi uma transição tranquila, continuei fazendo alguns freelas de moda e fui começando com os de ilustração.

O que Dublin te trouxe de mais positivo?

Eu fui para Dublin para inicialmente estudar inglês. Sempre tive vontade de morar em outro lugar e Dublin tinha um esquema de visto amigável. Como eu já estava pensando em migrar da moda para ilustração, aproveitei esse tempo de estudante de inglês. Foi nessa época que consegui meus primeiros freelas. Acabei me inscrevendo para um curso técnico de ilustração daqui e estudei por mais dois anos.

Estar num lugar completamente novo sem conhecer ninguém me ajudou muito a me conhecer e sair de várias caixinhas que eu me sentia presa, reconhecendo que elas eram minhas aliadas.

Eu, que sempre fui muito tímida e introvertida, aprendi a me soltar respeitando meus limites. Conheci pessoas maravilhosas, além dos professores do curso de ilustração que me ajudaram muito. Até hoje tenho contato com alguns.

Sempre morei no mesmo lugar em Criciúma. Dublin não é uma cidade terrivelmente grande, mas é cheia de história e tem gente do mundo todo, o que faz eu me sentir muito mais viva. Como comecei a minha carreira aqui, posso dizer que crescemos juntas.

Em relação ao mercado de ilustração, você sente muita diferença em relação do Brasil?

Honestamente, eu não consigo falar muito sobre o mercado aqui porque eu não trabalho diretamente com mercado irlandês. Como eu tenho uma agência, faço trabalhos para lugares diversos, além é claro do Brasil. Mas eu tenho alguns colegas ilustradores e sei que é um mercado complexo, que também luta por reconhecimento.

O que te dá mais prazer de ilustrar?

Eu adoro ilustrar pequenas cenas do dia a dia, com pessoas interagindo, bichinhos e natureza. Eu adorei esse ano participar do livro "101 coisas para você fazer com crianças antes que elas cresçam". Nele eu tive a chance de desenhar várias famílias fofas e usar cores que amo!

Giovana Medeiros - 101 Coisas

Como é criar para crianças?

Pode parecer estranho, mas eu não tenho muito contato com crianças. Uso minhas próprias memórias e observo as pessoas. Eu tento buscar esses momentos em que a gente se sente pequeno e maravilhado com coisinhas do mundo. Quando eu participei do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos), eu ganhei um retrato meu de uma menina, foi meio emocionante porque eu estava em BH e nunca havia participado, então jamais esperaria receber esse tipo de amor.

Conta pra gente um pouco do seu processo criativo?

Como hoje em dia eu faço muitos projetos com briefing completo, em geral o processo começa com estudo do briefing e pesquisa do tema. Às vezes, quando posso ter esse luxo, vou a algum museu ou lugar relacionado ao tema para começar a coletar imagens que possam me ajudar, senão é pinterest mesmo!

Começo os rascunhos, defino a história em thumbnails bem toscamente se existir uma sequência e faço estudo de personagens. Depois, se o prazo permitir, vou refinando os rascunhos até estar feliz. Faço o estudo de cores ou penso na sensação que quero passar com o desenho para escolhê-las, e assim começo a colorir no Photoshop.

Eu quase sempre trabalho na minha mesa e costumo ouvir alguns podcasts ou assistir série e filme de fundo. Às vezes eu gosto de ir a algum café ou biblioteca trabalhar para me forçar a sair de casa e aproveitar para “olhar o movimento” e desenhar no caderninho, mas depende muito. Tanto cinema quanto literatura me ajudam a contar histórias, sendo que o cinema também tem o apoio visual que a gente pode pegar emprestado para composição e clima.

Alguma dica especial para quem quer aplicar ilustrações para livros e revistas, por exemplo?

Por experiência própria, se você quer fazer um determinado tipo de trabalho você precisa tê-lo no portfólio. Por melhor que você seja, clientes são muito visuais e normalmente não têm tempo para a dúvida se a pessoa vai ou não conseguir fazer. Então, se você gosta de fazer trabalhos voltados para um público específico, produza exemplos disso. Se você quer trabalhar com ilustração de livro infantil, precisa mostrar que consegue ilustrar uma sequência de um jeito coerente.

Uma dica que meus professores sempre davam, é escolher histórias clássicas e trabalhar nelas. É uma chance de mostrar uma visão diferente do tema e pela história já estar pronta, você tem um briefing!

Isso ou participar de concursos de ilustração, não pelos prêmios mas para se forçar a produzir mesmo.

Como está sendo a experiência de se autobiografar através de quadrinhos?

Eu sempre fiz um pouco disso, algumas épocas mais, outras menos e foi assim que eu entrei no meio da ilustração. Eu gosto de fazer porque acho um bom jeito de guardar memórias e, ao mesmo tempo é algo que eu gostaria de amadurecer mais. Não é prioridade por enquanto, por isso eu tento fazer espontaneamente. Tenho um retorno legal pois as pessoas se identificam.

Duas dicas para quem quer começar

Desenhe bastante mas crie objetivos sólidos

Duas cores para combinar

Coral e azul marinho

Duas músicas para inspirar

Dois lugares para viajar

Itália e Irlanda (me visitem!)
No Brasil, São Paulo e Belo Horizonte

Dois sites para passear

Missed in history
Eu acompanho o podcast e o site sempre tem umas curiosidades boas
Humans of New York
Para ver pessoas e histórias

Duas referências para registrar

Jillian Tamaki
Carson Ellis

Duas coisas para não passar sem

Café e caderno

Dois livros para devorar

Jardim Secreto de Frances Hodgson Burnet
O Castelo Animado de Diana Wynne Jones

Dois filmes para emocionar

O Castelo Animado (animação)
Orgulho e Preconceito (2005)

Dois Studios da Colab55 para elogiar

@vitormrtns
@malenaflores

Duas artes da Colab55 para admirar

Princesa Coxinha
@brunookada
Pretty in Pink
@julianarabelo

Duas palavras para nortear

Respira fundo


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