Economia criativa e as voltas da vida: um bate-papo com Talita Chaves, do Inside The Office

Mesmo antes da porta abrir, no 11° andar de um prédio comercial no burburinho de Copacabana, já dá pra antecipar a energia de quem te espera do outro lado.

A porta em que batemos naquela quarta-feira ensolarada foi a do estúdio criativo do Inside The Office e quem nos recebeu radiante foi Talita Chaves, criadora do projeto, com quem conversamos sobre empreendedorismo, economia criativa, feminismo, energias e as voltas que a vida dá.

A jornalista de 37 anos, que saiu do interior do Rio em conexão direta pros pilotis da PUC, passou uma década lapidando sua carreira nos moldes tradicionais até que uma demissão inesperada e o fim de um relacionamento afetivo mostraram que seus sonhos não tinham nem começado.

Como nasceu o Inside the Office?

Quando me vi desempregada, depois de 11 anos trabalhando com comunicação na Petrobras, só tinha uma certeza: não conseguiria voltar pro modelo tradicional de trabalho. Eu não tinha um sonho específico, mas vinha flertando com fotografia há algum tempo.

Como estava em busca de mais definição, comecei a entrar em contato com pessoas que fizeram viradas profissionais. Não tinha nada estruturado ainda, era mais um bate-papo, como uma terapia pessoal mesmo.

Talita Chaves do Inside the Office: Economia Criativa e empreendedorismo

Só que as conversas eram maravilhosas e super emocionantes. Eu saía dos encontros pensando: tenho que contar essas histórias! Sabia que muitos estavam passando pelo mesmo momento, com as várias demissões de 2015, e entendi como poderia atuar. Criei o blog pra compartilhar inspiração.

Quando nasceu a empreendedora?

Eu sou muito mais coração que negócios, então ainda demorei bastante pra entender como eu viveria do que era publicado no Inside the Office.

A minha persona fotógrafa sempre falou bastante alto e percebi que muitos empreendedores criativos ainda tinham essa lacuna: não conseguiam mostrar bem seus produtos. Comecei a dar dicas simples – da produção ao clique – e a pensar em como levar esse conhecimento pra um público maior.

Quando eu tinha 20 anos, se alguém me falasse que ia empreender, eu nem entenderia.

O espaço do Inside the Office aconteceu quase organicamente. Surgiu a oportunidade de usar este escritório, que fica perto de casa. Eu tive apoio da família pra fazer a obra inicial, convenci minha mãe a entrar comigo na sociedade e montei a grade de oficinas.

Talita Chaves: Inside the Office e economia criativa

» O estilo de Talita: cordão @euliricas e aquarela de Flamingo @pilar__rodriguez__

E acabei assumindo meu papel como um mosaico de tudo o que já fui antes: a fotógrafa, a produtora de TV, a escritora, a empresária.

E a vida ficou maravihosa?

Olha, a vida ficou real. O sonho virou trabalho. Faço tudo sozinha, da agenda ao cafezinho, passando pelo atendimento.

Acho muito engraçado até hoje quando conversam comigo e dizem: ah, a sua equipe... Fico muito honrada, porque sou só eu mesmo! Então devo estar fazendo alguma coisa certa.

O financeiro, por exemplo, é um ponto delicado pra mim – sou de humanas mesmo (risos) – mas posso contar com minha mãe, que é ótima com números. E juntas vamos levando.

Sou a louca dos livros. Então, quando encontro uma limitação, sei que tenho ferramentas pra trabalhar isso em mim.

Acredito que estou no lugar certo, na hora certa – e que tudo aconteceu pra revolucionar minha vida, pra me ejetar daquele contexto e me colocar num caminho melhor.

É mais difícil empreender, sendo mulher?

Acho que a gente se culpa mais, como esperassem mais da gente. A gente acumula todas as tarefas e tem essa cobrança interna de não deixar pontas soltas – e olha que eu nem sou mãe ainda!

Talita Chaves do Inside the Office: Economia criativa e Feminismo

Conquistamos nossos espaços no mundo, mas não aprendemos a ignorar a pressão da sociedade. Como a busca eterna pela perfeição, que aparece com mais destaque nas redes sociais.

Se eu tô aqui hoje, é porque sou muito teimosa!

Acho que empreender é difícil em geral: você precisa adaptar sua vida toda, sair do piloto automático. Tem que entender também que nem todo dia vai ser bom. Que nem todo dia a gente acorda radiante, produtiva. E aprender a se perdoar, deixar a culpa de lado.

O que muda, com o próprio negócio?

Minha relação com o dinheiro foi a maior mudança que percebi. Tive que cortar gastos depois da demissão e, logo de cara, viver com o essencial foi um pouco mais sofrido.

Hoje, vejo como recebia meu bom salário mas tinha uma relação triste com o dinheiro – como se ele me obrigasse a ser quem não queria. Agora, cada centavo suado que ganho chega muito mais gratificante, vem junto com felicidade, realização.

E a gente devia aprender isso na escola, né? Tô eu aqui burra velha tendo que entender tudo isso agora. Passando por todo esse processo de autoconhecimento.

O que é sucesso pra você?

Reconhecimento. Não é ficar no verde no fim do mês. É receber um pacotinho surpresa, no meio da tarde, de uma empreendedora que eu conheci online e que sabia que eu tinha acabado de inaugurar o Estúdio.

Ela me mandou uma xícara personalizada com o nome do Inside the Office.

E eu fico pensando... eu nem sabia que teria esse projeto, que ele ia ter esse nome. E agora ele existe de verdade. Mas nada disso eu esperava. Então é tudo um grande sucesso pra mim!

Talita Chaves do Inside the office sobre economia criativa

Também é muito gostoso perder a noção de tempo no dia a dia. É chegar na quarta e nem perceber que não é sexta ou segunda. Nem se preocupar se tem feriado ou não, porque não tem mais um limite definido entre vida e trabalho, obrigação e prazer.

Depois de 20 anos, qual sua relação com o Rio de Janeiro?

O Rio é uma cidade que tem tudo a ver comigo, que continua me abrindo portas profissional e pessoalmente, mas que ainda valoriza muito pouco o mercado criativo. Ao mesmo tempo, ainda tem muito espaço pra ocupar e gente pra ajudar, o que é super interessante pra projetos como o meu.

Outro ponto que percebo é que o carioca da área criativa se diminui muito. É quase como se ele não merecesse ser valorizado. Sinto como se eu tivesse mais essa missão, de levantar todo mundo comigo.

Tento não me envolver com o aspecto político da cidade, porque vejo hoje quanta gente quer mudar as coisas e não está lá. Tá colocando a mão na massa, pensando em movimentar a economia, trabalhando no lado social de seus projetos.

Quem te inspira?

De cara eu penso na Juliana Amorim. Ela tem uma história muito parecida com a minha, não sabia bem o que queria fazer. Um dia ficou pensando sobre o que ela gostava na casa dela e que outras pessoas poderiam gostar também. Daí começou a fazer banquinhos de madeira, montou um ateliê lindo e tá lá pagando as próprias contas – uma vitória enorme!

Tem uma geração nova que chegou pra chacoalhar a gente e me inspira muito. Eles são super soltos no mundo, se jogam mesmo! Nasceram com Internet na veia. Eles não têm a insegurança da minha geração e isso é um tapa na cara, uma delícia de ver.

Daqui pra frente, como será?

Acho que só estou aproveitando 10% deste espaço aqui. Oferecemos as oficinas apenas aos sábados porque não consigo dar conta de aumentar grade ainda.

Quero lançar meu curso de fotografia pra empreendedores e viajar pelo Brasil entrevistando as pessoas, visitando ateliês, home offices... contando histórias.

Não sei como vai ser – e sou super flexível com o futuro – mas a essência do que eu quero já está definida: trabalho precisa ter um algo a mais, uma missão de vida mesmo.

Quem sabe, escrever um livro?


Inside The Office


Compre o estilo Inside The Office

As If!
@galaxyeyes
Dazed + Confused / White
@galaxyeyes
Arte 1
@camibusato
dreamer
@ohperashop
Green Chevron
@victorianeukirchen
Education for Liberation
@camixvx
Confira outras novidades »