Lopescodesign no oceano pop cultural

De Bukowski à cultura pop navega o trabalho de Fabio Lopes, o @lopescodesign. Designer por formação e ilustrador por vocação, a parte mais especial e relevante de sua arte ele aprendeu sozinho, através de referências que vão de Andrew Loomis a Breaking bad.

Lopesco faz uma arte crítica para falar do contemporâneo. Horror, mashups e lowbrow são temas recorrentes de trabalho. Suas pin ups, uma fusão da figura feminina com tatuagens old school e tradições de halloween, chamam atenção por unirem elementos paradoxais em uma roupagem inovadora.

Saber que seu trabalho mergulhará no imenso oceano cultural da humanidade é uma das coisas que mais dá prazer ao artista na prática de sua profissão. Alguém aí consegue esquecer a Calavera Princess depois de conhecê-la? Fabio Lopes é o tipo de artista para entrar no hall dos inesquecíveis. Como em expressão utilizada pelo próprio, "o resto é misticismo".

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Como foi o seu caminho até a arte?

Natural, não houve um evento certo. Desde muito criança já desenhava e aos 6 anos já ilustrava com relativa facilidade. Minhas garatujas da época eram mechs e monstros de animações japonesas, como “Pirata do Espaço” e maquetes dobráveis das naves de “Star Wars”. Aos 8 anos, meus pais achando que eu era genial me matricularam numa aula de desenho e pintura particular. Eu detestava porque era no sábado de manhã, mas tive acesso ao básico técnico e teórico de diversas mídias. Minha maior influência sempre foi essa: pop culture. Ainda a mesma de hoje.

Como funciona seu processo de criação?

Costumo ser mais ativado pelo ambiente externo: ver algo e ter uma ideia, maturar essa ideia, uma percepção ou mesmo uma inspiração. Enquanto designer não posso me dar a esse luxo: demanda feita deve ser demanda cumprida. Mas tanto numa atividade quanto em outra não tenho um processo 100% repetitivo. Após considerar a ideia como válida, faço uma pesquisa que pode durar 1 hora, 1 dia ou mesmo 1 semana. Em seguida, costumo fazer um esboço, a lápis no papel ou digitalmente no iPad, para então partir para o trabalho final de ilustração. Com a composição final em mente desde o início, uso mídias diversas quando é pessoal e sempre digital quando é para reprodução.

Como é um dia comum pra você?

Trabalho como designer gráfico no esquema “9 to 5”, e ao chegar em casa começo a segunda jornada como ilustrador free-lancer.

Que técnicas você mais gosta de usar?

Nas mídias tradicionais, sou mais eficiente com grafite, pena e aquarela, tanto que muitas vezes meu trabalho inicial em grafite ou pena é apenas transportado para o meio digital para receber cor e acabamento projetual. No âmbito digital me sinto em casa, mas prefiro Bitmap à Vetor.

O que te dá mais prazer em criar?

Notar meu desenvolvimento profissional de um trabalho para outro e sentir que algo meu foi lançado ao oceano cultural da humanidade. Meu trabalho preferido sempre é o mais recente. Figura humana, horror, cultura pop, mashups e lowbrow são temas recorrentes.

Quais as suas maiores referências?

Apesar de ter cursado aquelas aulas na infância e pré-adolescência além de duas graduações na área, minha formação mais relevante é autodidata. Referências são muitas mas as recorrentes são: Robert Crumb, Bernie Wrightson, Robert Williams, Andrew Loomis, Benício, Rockin Jelly Bean, Johnny Craig, Dave McKean e mangakás diversos como Takehiro Inoue, Urasawa Naoki, Miura Kentaro, Junji Ito e Katsuhiro Otomo.

De onde vem a inspiração para criar suas marcantes pin ups?

Partem inicialmente desse estudo de anatomia humana ao qual eu adiciono alguma referência imagética de cultura pop, como na série “Princesses”, onde há essa fusão da figura feminina com tatuagens old school e as tradições de halloween e dia de los muertos.

Como foi ilustrar poemas de Bukowski?

Quando tive de fazer meu trabalho de graduação na Escola de Design, a minha proposta era de desenvolver ilustrações e a pesquisa sobre metáforas visuais. Como o trabalho de graduação é livre, o interessante é sempre partir de um assunto que você realmente domine e goste, então eu tinha 2 opções: trabalhar com os poemas de Bukowski do livro de 1969 “The days run away like wild horses over the hills”, ou a primeira opção, que era ilustrar as músicas do “White Album” dos Beatles. A opção do livro ganhou pelo fato da poesia apresentar muito mais metaforicamente o que a ser ilustrado que as letras de músicas. O processo foi basicamente criar as metáforas visuais contidas num poema a 300 dpi no app Procreate (iPad), e na sequência fundir digitalmente estas imagens com aquarelas feitas em papel Canson, o que gerou um resultado bastante orgânico no final. O resto foi o processo editorial padrão.

Arte - Lopesco Design

O quanto o cinema e a cultura pop influenciam seu trabalho?

Meu trabalho é basicamente cultura pop. Se não tiver algum elemento da cultura pop, me sinto ilustrando padronagem para tecido ou pintando cavalos e palhaços para sala de estar de gente idosa. Isso sem querer desrespeitar ninguém, é claro. Cada um na sua.

Algum projeto em perspectiva?

No momento, estou preparando estampas localizadas para o fim do ano e uma ilustração maior para um cliente australiano.

Pra você, arte é mais inspiração ou transpiração?

As duas coisas, mas sempre a segunda em escala muito maior. A inspiração deve sempre passar por um criticismo sério, para evitar ideias ruins, não possíveis naquele momento ou naquele projeto, seja por razões técnicas ou conceituais, ou mesmo evitar plagiarismos inconscientes. Além do trabalho que dá criar algo que valha a pena ser visto.

Ser artista é estudar e pesquisar formas e meios para na sequência transformar ideias em conteúdo visual inteligível, independente de expertise analítica ou nível sócio-cultural do observador.

Duas dicas para quem quer começar

Ler e estudar muito sobre tudo, mas principalmente sobre a sua área de atuação. A arte tem uma tradição de conhecimento e pesquisa que não pode ser ignorada, razão pela qual tem tanto lixo por aí sendo considerado arte.

Estudar anatomia artística e perspectiva. Não se cria um boneco de palito consistente figurativamente sem estas duas coisas.

Duas cores para combinar

Laranja e Azul

Duas músicas para inspirar

Dois lugares para viajar

Sou um cara caseiro, mas quem gostar de História da arte sugiro vir para os lados aqui de Mariana e Ouro Preto.

Dois sites para passear

Godmachine
Temática “gothic horror”, muito bom trabalho (para quem curte ilustração vetorial, recomendo ainda mais)
Rockin Jelly Bean
O Instagram dele é super bacana, pois além de um lance meio lifestyle, lá mostra muito do processo de criação desde o esboço até a finalização

Duas referências para registrar

Bernie Wrightson, que faleceu este ano.
As galerias de seu site dão uma amostra de quem foi este gigante.
Robert Williams
De onde surgiu o termo “lowbrow”. Obrigatório.

Duas coisas para não passar sem

Estudo e família

Dois livros para devorar

Pergunta difícil, mas 2 que somam assuntos elementares de forma sucinta:

Successfull Ilustration de Andrew Loomis
Na verdade todos os livros dele são recomendáveis, senão obrigatórios

Art of Composition de Michael Jacobs
Livro da primeira metade do século XX que trata da divisão formal do espaço através de simetria dinâmica - fundamental para dividir diferentes espaços nos quais se criará uma ilustração, identificando os pontos de maior ou menor destaque visual)

Dois filmes para emocionar

The Godfather part 2 (FF Coppola 1974)
The Seven Samurai (Akira Kurosawa 1956)

Dois Studios da Colab55 para elogiar

@pixelcartel
@spookylili

Duas artes da Colab55 para admirar
Mind Control for Cats
@tobefonseca
Omen
@marcellisboa

Duas palavras para nortear

Estudo e pesquisa. O resto é misticismo.


Conheça o Studio

Studio na Colab55