Quadrinhos que falam por Laura Athayde e muitas outras vozes

Laura Athayde é dessas artistas que você quer conhecer e, depois de ter essa sorte, acompanhar o trabalho pra sempre.

A força de seu discurso está em cada traço, em cada novo quadrinho corajoso que a ilustradora divulga nas redes sociais. É quase como um ímã, provando que arte pode ser poderosa e acolhedora.

Laura Athayde

Laura é quadrinista, tem tirinha semanal em jornal e sua própria HQ. Ex-advogada, que aproveita a formação para agir contra plagiadores (#ficaadica), ela foi levada pra arte através dos quadrinhos independentes e investiu grande parte da sua energia e criatividade no formato, que acredita ser o mais poderoso para provocar discussões amplas sobre questões sociais.

Através do projeto Aconteceu comigo, Laura dá voz a muitas mulheres e se orgulha do retorno e engajamento que ele gera. Como parte deste caminho, foi convidada para ilustrar três personagens do livro "50 mulheres incríveis pra conhecer antes de crescer", de Débora Thomé.

Mesmo com tantos trabalhos incríveis, Laura ainda sente dificuldade de se ver como artista. Mas nesse questionamento, vamos concordar em discordar ?

Sua formação é em direito e você se denomina desenhista por teimosia. Como foi esse percurso?

Eu sempre gostei de ler quadrinhos e isso influenciou muito o meu gosto por desenhar. Desde criança eu gostava de rabiscar personagens da Turma da Mônica, e até hoje eu amo desenhar pessoas e cenários. Tenho muita dificuldade com imagens mais abstratas.

Na idade de prestar vestibular, sequer me passou pela cabeça ter a arte como profissão. Eu não conhecia nenhum artista pessoalmente, apesar de viver na mesma cidade que a incrível Irena Freitas, e não tive apoio de pessoas próximas a mim pra cursar Artes Plásticas ou Design. Então, fui fazer o curso tradicional da minha família, Direito.

Ao fim da graduação, comecei a trabalhar na área e vi nela a possibilidade de sair de Manaus, minha cidade natal, e ir pra São Paulo, a minha cidade dos sonhos. Me mudei pra SP em 2014 para fazer uma pós e foi aí que conheci o mundo dos quadrinhos independentes e entrei pra nunca mais sair.

Comecei a acompanhar o conteúdo de uma página do Facebook chamada Quadrinhos Insones e assim tive contato pela primeira vez com a produção autoral e independente. Eu lia trabalhos de pessoas da minha idade e de um contexto parecido com o meu que falavam sobre cotidiano, desejos, medos e desilusões. Eu me identificava muito e comecei a pensar que talvez eu também pudesse falar sobre isso nos meus próprios quadrinhos.

Uma das tirinhas antigas das quais mais me orgulho ❤ . #hq #quadrinhos #ilustração

Uma publicação compartilhada por Laura Athayde (@ltdathayde) em

Retomei o desenho, que não praticava desde o ingresso na faculdade, e fiz algumas tirinhas que mandei pra essa página. O pessoal que administrava foi super legal e receptivo. Quando eles gostavam dos trabalhos, publicavam e o retorno dos leitores me dava ânimo pra continuar fazendo. Um dos administradores da página, o Diego Sanchez -cujo trabalho com quadrinhos e tatuagem eu adoro- me disse que a Editora MÊS e o Zine XXX estavam organizando coletâneas de HQ.

Meus trabalhos foram selecionados e eu comecei a participar ativamente dos eventos de quadrinhos que aconteciam em vários estados do Brasil, além de conhecer e dialogar com cada vez mais artistas independentes. Chegou o ponto em que eu decidi dar uma chance real aos quadrinhos e à ilustração e me dedicar inteiramente a isso, ao invés de ser advogada de dia e artista de noite.

Depois de aproximadamente três anos de muito trabalho voluntário na área, trampos mal pagos e tretas em geral, eu finalmente cheguei em um ponto da minha carreira em que consigo pagar minhas contas com ilustração e quadrinhos.

O que os quadrinhos representam pra você?

O meu gosto por quadrinhos moldou muito o meu estilo de desenho, que inclusive é bem influenciado pelos mangás que li na adolescência. Quando finalmente decidi começar a fazer quadrinhos, o que eu gostava de consumir na internet eram tirinhas bem pessoais sobre cotidiano e experiências íntimas dos artistas. Foi isso o que eu decidi fazer.

Como eu sou mulher em um país em que isso ainda é difícil e perigoso, é natural que meus quadrinhos passem por esse tema, ainda que de um ponto de vista pessoal. Comecei a desenhar tirinhas sobre assédio na rua, sobre aparência, autoestima e minhas emoções diante de coisas banais e complexas da vida, como o amor.

Com o tempo, eu comecei a enxergar nos quadrinhos uma ferramenta muito poderosa de comunicação. Eles têm um potencial muito grande de circulação nas redes sociais, são muito compartilhados e passam mensagens importantes com uma estrutura aparentemente simples.

Eu adoro acompanhar as discussões que surgem na minha página do Facebook e em outras plataformas. Eu passei a pensar que talvez conseguisse usar meu trabalho pra contar histórias de outras pessoas. Se meu público conhecesse vivências de mulheres trans ou com deficiência, por exemplo, poderia ter mais empatia.

Foi assim que surgiu a série Aconteceu Comigo, baseada em relatos reais de mulheres
que eu transformo em quadrinhos. As discussões geradas por esse trabalho têm sido surpreendentes. Tenho amado fazê-lo e aprender mais sobre como é o mundo através dos olhos de outras mulheres.

O empoderamento feminino é tema frequente em seus trabalhos. Pra você, qual o papel da arte em movimentos como esse?

A arte é a nossa ferramenta geradora de discussões. E, por isso, vem sendo tão atacada ultimamente.

Como abordar temas difíceis, como pedofilia, abuso e preconceito, de forma a atingir muita gente e provocar uma discussão ampla? Pra mim, a resposta é: através dos quadrinhos.

Nas redes sociais, conteúdos com imagem chamam muita atenção. Temos ensaístas incríveis em plataformas como o Medium, em blogs ou no próprio Facebook. Ultimamente tenho visto textos ótimos sobre temas muito pesados, como abuso infantil, sendo lidos e compartilhados em massa por lá, o que é incrível. Mas a minha experiência com quadrinhos, especialmente sendo uma artista que trabalha primariamente com Internet e redes sociais como meios de divulgação, é de que materiais que combinam linguagem escrita e visual tem um alcance enorme.

Além disso, no quadrinho eu vejo uma oportunidade de não ser tão literal nas minhas opiniões, deixando um pouco de espaço pra interpretação e pra discussão. Na série Aconteceu Comigo, eu procuro limitar a minha interferência ao máximo e reproduzir o relato que estou desenhando da forma mais fiel possível. Acho que pode ser revelador pra muita gente ler sobre temas que parecem corriqueiros -como uma mulher gorda que não usa biquini porque tem vergonha do próprio corpo- e finalmente perceber o tanto que isso pode afetar a vida e o amor-próprio de alguém.

Eu espero que, ao ter acesso às histórias de mulheres com as mais diversas vivências e experiências, as pessoas possam não apenas se identificar, mas também se tornar mais sensíveis às diferenças e acolhedoras.

Conta um pouco mais sobre a série “Aconteceu comigo”?

A série Aconteceu Comigo nasceu dessa vontade de tornar o mundo mais sensível às dificuldades cotidianas da vida das mulheres. Coisas que são corriqueiras, como o fiu-fiu na rua ou a crítica ao cabelo crespo, não são menos agressivas ou difíceis só porque acontecem todos os dias.Contudo, as mulheres não são todas iguais e não passam todas pelas mesmas coisas. Então, como eu poderia escrever com honestidade sobre coisas que não vivi? Daí surgiu a ideia de pedir pra que as pessoas me mandassem relatos através da minha página do Facebook <facebook.com/ltdathayde>, que seriam então transformados por mim em quadrinhos e publicados na própria página sem o nome da autora do relato, a não ser que ela pedisse pra ser identificada.

Percebi que só o fato de colocarem esses desabafos pra fora já as deixava aliviadas e perceber a identificação do público nos comentários das tirinhas era algo pelo que essas mulheres ficavam muito gratas. Foi maravilhoso perceber que eu podia ser uma ponte entre essas mulheres e pessoas que partilhavam de histórias parecidas, fazendo com que se sentissem menos sozinhas e mais apoiadas.

É o meu projeto favorito. Apesar de estar em hiato porque a faculdade tem tomado muito o meu tempo nos últimos meses – e o processo de escolher as histórias, adaptá-las para o espaço de uma página e desenhá-las é bem demorado - eu pretendo continuá-lo e, eventualmente, compilar em um livro.

Também fiz outros trabalhos em que os relatos do público da minha página eram o enfoque central, como o Retrato Falado de um Relacionamento Ruim, mas esse era bem bad vibes e ainda não encontrei forças pra continuar. No Acontececu Comigo, as histórias costumam ter um tom mais otimista e mensagens de empoderamento.

O que te dá mais prazer de criar?

Eu tenho bastante dificuldade em me expressar sobre temas muito íntimos. Como ex advogada, eu gosto muito de debater mas, quando o assunto é muito pessoal, travo total. Nisso os quadrinhos me auxiliaram bastante. Além de ajudar a me expressar sobre sentimentos, também me deram a oportunidade de conhecer outros pontos de vista e formar opiniões sobre temas complexos.

Por exemplo, quando eu fazia quadrinhos como membro do coletivo Mandíbula, tínhamos temas semanais pra todas as artistas e, um dia, recebemos o pedido de uma leitora pra fazermos uma semana de tirinhas sobre aborto. Ela tinha passado por isso recentemente e esse sentia muito sozinha, sem ter com quem conversar. Nós nos reunimos, debatemos e as artistas que se sentiram confortáveis se comprometeram a fazer trabalhos sobre o tema. Foi uma chance de pesquisar mais sobre o assunto e finalmente decidir de que lado da discussão eu estava. Sinto que cresci bastante com situações como essa.

Isso me dá um prazer enorme em criar: poder dialogar com as pessoas sobre temas que acho importantes. Isso também guia as minhas escolhas de trabalhos como ilustradora. Acabou de ser publicado o livro 50 Brasileiras Para Conhecer Antes de Crescer, do qual tive o prazer de participar com três ilustrações de mulheres fodas da história. É um projeto que eu acho muito relevante. A dedicação a isso me estimulou a pesquisar, explorar estilos que considerava mais adequados a cada personagem histórica e a criar artes das quais me orgulho bastante.

50 Brasileiras Para Conhecer Antes de Crescer - Laura Athayde

Como você desperta sua criatividade?

Bom, hoje em dia eu consumo arte o dia inteiro, através do meu feed do Instagram. O meu processo criativo já começa aí, porque gosto de experimentar com muitos estilos e materiais diferentes quando desenho e fico cheia de ideias.

Como eu publicava tirinhas semanais na Mandíbula e continuo fazendo isso hoje no portal O Beltrano, eu também criei o hábito de sempre anotar no celular ideias e situações que acontecem comigo ou que me ocorrem durante o dia.

Quando chega o dia de fazer a tirinha, junto uma ideia anotada com uma vontade de experimentação com desenho e vou tentando encontrar o melhor jeito de unir ideia e a imagem. Tento ao máximo fazer com que imagem e texto se complementem e não sejam literais demais. Tento aproveitar ao máximo o quadrinho como linguagem que casa essas duas coisas. É um exercício constante.

As ideias normalmente surgem na rua ou na cama, antes de dormir, pensando nos acontecimentos do dia. Tenho o hábito de desenhar ao ar livre ou em cafés. Gosto de silêncio e tranquilidade e, por isso, na hora de botar a mão na massa pra desenhar, prefiro estar no conforto da minha casa.
Mas, como hoje em dia eu trabalho com quadrinhos e ilustração e freelancer não tem férias nem dia santo, é claro que nem sempre isso é possível.

Mês passado eu passei vinte dias viajando e, como tinha prazos pra cumprir com a entrega da capa e das ilustrações internas do livro Tudo Nela Brilha e Queima – Poemas de Luta e Amor, da Ryane Leão, eu precisei levar meu scanner, notebook e mesa digitalizadora na mochila. Fiquei carregando esse trambolho de um lado pro outro e desenhando em quartos de hostel e Air BnB.

Tudo nela brilha e queima - ilustração Laura Athayde

Por que “quadrinhos tristes e piadas ruins”?

“Quadrinhos tristes e piadas ruins” é uma descrição que combina bem com meu senso de humor ligeiramente autodepreciativo. Além do mais, acho que essa descrição, que coloco no meu Instagram e página do Facebobok, já serve de alerta pra quem espera encontrar charges levinhas ou piadas por lá: eu até faço, mas também faço desabafos e abordo temas pesados com a mesma frequência.

O que é arte pra você?

Arte é o escudo e a ponta da lança. É o que provoca discussões, empurra a sociedade pra frente e, ao mesmo tempo, nos protege de retrocessos, intolerância e conservadorismo.

Até hoje eu luto um pouco com a ideia de me considerar uma artista. Eu gosto de aplicar meus textos e desenhos a discussões muito práticas. Ainda existe em mim um pouco dessa ideia de que a arte é um lugar sagrado e importante e que é só para pessoas que pintam com óleo sobre tela e outras coisas mais tradicionais. Mas tenho pensado cada vez mais que se o propósito da arte é questionar e fazer sentir, talvez haja lugar pra mim e pra minha arte meio tradicional, meio digital.

Pra você, ser artista é…

Amar experimentar, testar coisas novas, consumir e produzir trabalhos criativos. Sentir uma necessidade quase incontrolável de se comunicar e encontrar a sua própria maneira de fazer isso.

Duas dicas para quem quer começar

Põe seu trabalho pra circular. As pessoas têm que te ver e te criticar pra que você melhore cada vez mais e também pra que sua carreira comece a caminhar.

Tente encontrar a sua própria maneira de fazer arte, mas não esqueça que pra isso, você tem que pesquisar muito.

Duas cores para combinar

Madeira crua e dourado

Duas músicas para inspirar

Dois lugares para viajar

Manaus e Belém
Vai passar calor? Vai. Mas também vai comer comidas maravilhosas que nunca viu antes, tomar banho de rios largos como o mar e beber chope de bacuri.

Dois sites para passear

Lady´s Comics, onde três minas muito firmeza de BH escrevem sobre a produção cultural feminina no Brasil e no mundo.
O MinasNerds, onde que mulheres poderosíssimas de várias áreas discutem cultura pop, ciências e um monte de outras coisas legais.

Duas referências para registrar

Conheci muitos artistas incríveis seguindo essas contas de Instagram. Recomendo.
Brown Paper Bag
Gibi Foda

Duas coisas para não passar sem

Suco natural geladinho
Livros

Dois livros para devorar

50 Brasileiras Incríveis Para Conhecer Antes de Crescer
Tudo Nela Brilha e Queima – Poemas de Luta e Amor
Eu tô muito orgulhosa deles, gente!

Dois filmes para emocionar

O Blade Runner de 1982
Apesar de todos os seus problemas de representação feminina, me marcou muito pela estética retrô-futurista e clima noir

Princesa Mononoke
Animação visualmente linda e cheia de nuances. Aliás, eu recomendo todos os trabalhos desse diretor, Hayao Miyazaki

Dois Studios da Colab55 para elogiar

Studio do @brunorhuan, estampador incrível
Studio da divertidíssima ilustradora Ana Terra, o @extraterrestre

@extraterrestre
@brunorhuan

Duas artes da Colab55 para admirar

As coisas da @giovanamedeiros são lindas, mas tenho a minha preferida, a Gatinhos
A @camixvx tem artes lindas e empoderadoras com uma pegada pop irresistível

GATINHOS
@giovanamedeiros
Resist and Fight
@camixvx

Duas palavras para nortear

Tranquilidade e sonho

Conheça o Studio

Studio na Colab55